Name:
Location: Brasília, DF, Brazil

Eu sou a menina que passava as tardes de férias na fazenda, em cima da goiabeira, lendo. E os meses de aula na casa da árvore, lendo. Ou deitada na cama, lendo, sem ouvir que o almoço estava na mesa. Hoje, queria ler mais do que eu gosto e menos do que eu preciso. Mas a gente aprende que a gostar do que faz, em lugar de fazer o que gosta?

Wednesday, August 31, 2005

O eterno retorno

Aviso aos apreciadores de Nietszche: eu não sei do que estou falando...

Sabe aquela história do eterno retorno? De que a história se repete, ainda que os atores sejam diferentes? É claro que qualquer observador comum consegue ver as semelhanças entre alguns fatos históricos passados e outros atuais. Até aí, tudo bem - a angústia de que tudo se repete infinitamente é compartilhada com os demais seres humanos, e o fardo parece mais leve de carregar. Mas o que acontece quando você sente que as coisas na SUA vida estão se repetindo? Você roda, roda, aprende com as pessoas (ou acha que aprende), deduz que fez algum progresso e acaba ali, de volta no mesmo lugar.

Eu sempre sinto isso quando o assunto são relacionamentos interpessoais. Toda amizade acaba tendo conflitos parecidos, e a gente sempre se perde nos mesmos deslizes. Toda paixão tem os mesmos defeitos, e a gente se chateia com coisas tão óbvias... É só dar um passo para trás, olhar para aquilo e pensar: "Nossa! Eu já fiz a mesma coisa antes! E deu muito errado! Por que é que eu não dou conta de simplesmente não fazer de novo?". Nem adianta: comigo, é batata fazer errado uma, duas, três vezes, antes dos tombos do cavalo deixarem lembranças fortes o suficiente (efeito Pavlov de condicionamento: você toma tantos choques que não quer mais tentar). Ainda bem que, para essas coisas, eu tenho memória de peixe: "lá vai de novo, descendo a ladeira, toda faceira, pronta pra fazer besteira...".

Ao mesmo tempo, a problemática só te parece igual às anteriores depois que você já consumou uma ação repetida (ou seja, quando é tarde demais). E, apesar de tudo repetido, e da sensação de "mais do mesmo", também acontece a eterna frustração de não poder prever aquilo... Um dos personagens de Kundera diz, em "A insustentável leveza do ser", que "einmal ist keinmal". Um provérbio alemão que, traduzido, passa a idéia de que "uma vez só não conta, uma vez só é nunca. Viver senão uma vida é como não viver nunca", porque é como fazer o rascunho de um quadro que nunca será pintado. Você vive a primeira vez, e é o ensaio de uma peça de teatro que não se apresentará jamais. Não sei se o Kundera estava falando do que eu entendi, mas para mim, é como se a gente nunca pudesse ver a jogada seguinte e se preparar. E, no entanto, depois que a jogada passa, eu tenho a impressão de déjà vu.

Vai ver, o grande lance é não olhar a vida como uma eterna seqüência de ironias - eu sempre acho que é uma peça sendo pregada nos meus sentidos e sentimentos. "Ah, tá bom, é um teste... Então como é que eu faço pra acertar a resposta?". Ou, de um ponto de vista mais otimista: "isso está acontecendo para eu aprender alguma coisa. O quê?". O problema é que, se acontece tantas vezes, será que eu sou tão burra que não aprendo nunca?

0 Comments:

Post a Comment

<< Home