De tudo que eu ainda não sei...

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Location: Brasília, DF, Brazil

Eu sou a menina que passava as tardes de férias na fazenda, em cima da goiabeira, lendo. E os meses de aula na casa da árvore, lendo. Ou deitada na cama, lendo, sem ouvir que o almoço estava na mesa. Hoje, queria ler mais do que eu gosto e menos do que eu preciso. Mas a gente aprende que a gostar do que faz, em lugar de fazer o que gosta?

Thursday, September 15, 2005

O problema é que eu não sei jogar...

Já brincou de cabo-de-guerra com alguém? É engraçado, se as duas pessoas têm forças parecidas, parece que tem um empate. Aí, aos poucos, você começa a perceber que, talvez, a outra pessoa vai ganhar, porque seus pés vão deslizando bem sutilmente, e você se vê mais perto de ultrapassar a linha do outro campo e perder. O que a maioria das pessoas faz é, quando chega essa hora, lutar com todas as forças, até o último minuto - e adiam, assim, a derrota inevitável. Eu resolvi que, agora, da próxima vez em que alguém estiver ganhando de mim no cabo-de-guerra, eu vou soltar a corda.

Se você solta a corda e não faz mais força, a outra pessoa é quem cai.

Devaneios de Nássara...

Agora, eu vou respirar bem fundo
E fazer de conta que eu não estou triste
porque você se foi
E lembrar que eu fiquei feliz
enquanto você estava aqui

E vou imaginar que a gente saiu
andando de mãos dadas
no meio do mato
conversando baixinho
pra não assustar os bichinhos.
E uma joaninha pousou sobre os seus cabelos
E sobre eles pousei, eu também, as minhas mãos
Enquanto você me abraçava.

E nos sentamos sobre a relva
olhando a água do rio
em silêncio
(só o murmurar baixinho das águas sobre as pedras
e o seu murmurar aos meus ouvidos)
A sua respiração e a minha
no mesmo ritmo
E quando eu prendi o fôlego
achei ter ouvido o seu coração batendo
Quando fechei os olhos,
o sol dançando sobre as minhas pálpebras
E os seus lábios sobre os meus

Aí, você se levantou
me deu um beijinho na bochecha
[bem-comportado]
Me fez um carinho
e disse que já voltava

E aqui estou eu, sentada, esperando
Olhando o curso d'água
Sorrindo e com saudades
Esperando você voltar.

"O sândalo perfuma o machado que o feriu" - Legião

Se eu te encontrei
foi por acaso
Mas se eu te procurei depois,
foi por vontade

Se deu certo
foi por acaso
Mas se depois eu te beijei
foi por vontade

Se eu gostei
foi por acaso
Mas se depois você se foi
Foi por vontade
Ou foi por descaso?

Faz uma lista e guarda no bolso esquerdo

Toma nota
das coisas que tens de me devolver
Aqueles presentes
que as minhas mãos moldaram
do meu carinho
Devolve-os!

Aqueles sonhos
que meus olhos traçaram
no infinito dos seus
Retorna-os!

Mas aqueles beijos
e aqueles abraços
que eu desenhei
um a um
com meus lábios e meus braços
Esses, guarda-os para ti
ou atira-os ao mar
Porque esses eu não quero mais lembrar.

Adeus, adeus, adeus...

Eu perdi minha cidade
mas ganhei nova pólis
Eu perdi alguns amigos
Mas parceiros novos me encontraram
Eu perdi algumas escolhas
mas ganhei outras
Até meu cachorro eu perdi
mas outro cachorro eu tive

Agora, o meu coração
Eu deixei para trás
E o novo, que iam me mandar pelo correio
(Eletrônico?)
Esse, não chegou.

Monday, September 05, 2005

Spleen sem charutos

Tudo é dor
e toda dor
vem do desejo
de não sentirmos dor

(Legião)

Quando sitiados pelos Atenienses, os Mélios (vide Tucídides) não dispunham de nenhuma forma eficaz de resistência. Eles tentaram, então, argumentar com os Atenienses, propondo não aceitar a rendição (proposta pelos inimigos) nem ir à guerra contra eles. Os Mélios queriam adotar uma posição neutra, mas manter-se como um Estado independente. Sem recursos físicos, eles recorreram à argumentação da Esperança para convencer os Atenienses.

Os Mélios foram massacrados e sua cidade, destruída para todo o sempre. Algumas mulheres e crianças, que sobreviveram, foram vendidas como escravas - inclusive sexuais.

A esperança é, portanto, a última que morre. Mas morre.

Thursday, September 01, 2005

Do amor e dos meus outros demônios

"Uuuh-iiiiiii-uuuuh-iiiii-uhhhh-iiiiii..."
Ela abriu os olhos com vontade de continuar dormindo, mas o sol no rosto e a sirene de polícia no ouvido diziam que já era hora.
Saiu preguiçosa da cama, lentamente escorregando as pernas de debaixo do lençol, expondo a pele fresca à claridade. Os pés nus tocaram o chão, palmilharam um pouco o assoalho de tons claros e deslizaram para as chinelas de dedo.
- Bom dia, flor do dia...
(Já reparou como as pessoas conversam consigo mesmas quando estão sozinhas?)
Pijama na cama, água no rosto, o arrepio do gelado no quente e escova de dentes. Morangos cuidadosamente lavados no café da manhã, bolachas e suco. Roupas de trabalho, um suspiro ao abrir o armário. Outro suspiro ao calçar os sapatos (ai, como eu odeio salto alto... "Você acostuma...", dizem as amigas. Mas essas pessoas não são minhas amigas de verdade. Então eu não vou confiar em ninguém. Você não me conhece...).
Beatles tocando no som, ela dançando desajeitada e cantando junto:
- Não tem nada que você pode fazer que não possa ser feito... Tudo de que você precisa é amor.
(Engraçado os Beatles dizerem isso, eles fizeram tantas coisas diferentes e inovadoras... E como assim, eu preciso de amor? O que é o amor? A gente acaba inventando uns conceitos que depois não consegue aplicar em lugar algum...)
Sentou na frente da janela, protegida do sol pela árvore frondosa ali em frente. Manhã bem fresquinha.
- Não vou para o trabalho hoje de manhã. Vou ficar escrevendo.
Sentou na frente da pilha de papéis em branco, pegou a caneta, respirou fundo:

O que é amor? Acho que amor é igual felicidade: não existe. As pessoas confundem momentos de alegria com a noção de que aquilo poder-se-ia prolongar indefinidamente. Não pode, não vai, querer isso só gera uma expectativa que jamais irá se cumprir. Amor é a mesma coisa. Não existe. Existe paixão, existe carinho, existe amizade. E atenção, cuidado, companhia. Mas amor, amor mesmo, o que é? Uma mistura disso tudo? E o ciúme, a saudade, a vontade de ficar junto quando não se está junto, as expectativas frustradas, a irritação, a outra pessoa não pensa como você, que coisa irritante! Isso tudo também é amor? Vou ser budista, então, essa visão ocidental desinformada que a gente tem de budismo, vou aceitar as coisas como elas são, sem mais nem menos, tudo tem um propósito e eu não preciso saber qual é. Aí esse lado ruim do amor não me incomoda mais. Peraí, eu falei que amor não existe. Existe? Prova para mim. Você já pensou que amava alguém, disse para a pessoa do fundo do seu coração, e depois - pode ter sido dias, semanas, anos depois - concluiu que não amava? O que foi, dexou de amar? Mas amor de verdade não deveria acabar.
"Que não seja imortal, posto que é chama"... Isso não é amor, Vinícius, é paixão. Aliás, acho que o Vinícius de Moraes nunca amou ninguém de verdade - só ele mesmo. Amor-próprio existe, só amor que não. E amor-próprio (que na verdade nem é amor, é estima: auto-estima), pouquíssima gente tem.

Concluiu que tinha que ir trabalhar mesmo, não adiantava ficar enrolando. E nem se enganando: o que quer que fosse aquilo que ela achava que já tinha sentido, que ela ia quase sentir de novo, que ela sentia pela família distante, pelos amigos, por... Aquilo era amor. Ou se não fosse, qualquer nome que tivesse, ela queria sentir. Mesmo quando era ruim era bom, só era ruim quando acabava - porque a outra pessoa não amava, ou porque ela não amava, ou porque a pessoa morria. Esse é o pior: acabou porque a pessoa foi embora, sem querer ir, e você ficou, sem querer ficar. Aí, esse pedaço no seu coração não cicatriza, fica sempre um buraco - maior ou menor -, e aos poucos a gente vai ficando mais incompleto.

Levantou da cadeira, bateu as mãos (não tinha escrito uma linha) e resolveu fingir que era normal e não pensava nessas coisas. Pegou a bolsa, as chaves, abriu a porta e fugiu de si mesma: caiu no mundo.