"Uuuh-iiiiiii-uuuuh-iiiii-uhhhh-iiiiii..."
Ela abriu os olhos com vontade de continuar dormindo, mas o sol no rosto e a sirene de polícia no ouvido diziam que já era hora.
Saiu preguiçosa da cama, lentamente escorregando as pernas de debaixo do lençol, expondo a pele fresca à claridade. Os pés nus tocaram o chão, palmilharam um pouco o assoalho de tons claros e deslizaram para as chinelas de dedo.
- Bom dia, flor do dia...
(Já reparou como as pessoas conversam consigo mesmas quando estão sozinhas?)
Pijama na cama, água no rosto, o arrepio do gelado no quente e escova de dentes. Morangos cuidadosamente lavados no café da manhã, bolachas e suco. Roupas de trabalho, um suspiro ao abrir o armário. Outro suspiro ao calçar os sapatos (ai, como eu odeio salto alto... "Você acostuma...", dizem as amigas. Mas essas pessoas não são minhas amigas de verdade. Então eu não vou confiar em ninguém. Você não me conhece...).
Beatles tocando no som, ela dançando desajeitada e cantando junto:
- Não tem nada que você pode fazer que não possa ser feito... Tudo de que você precisa é amor.
(Engraçado os Beatles dizerem isso, eles fizeram tantas coisas diferentes e inovadoras... E como assim, eu preciso de amor? O que é o amor? A gente acaba inventando uns conceitos que depois não consegue aplicar em lugar algum...)
Sentou na frente da janela, protegida do sol pela árvore frondosa ali em frente. Manhã bem fresquinha.
- Não vou para o trabalho hoje de manhã. Vou ficar escrevendo.
Sentou na frente da pilha de papéis em branco, pegou a caneta, respirou fundo:
O que é amor? Acho que amor é igual felicidade: não existe. As pessoas confundem momentos de alegria com a noção de que aquilo poder-se-ia prolongar indefinidamente. Não pode, não vai, querer isso só gera uma expectativa que jamais irá se cumprir. Amor é a mesma coisa. Não existe. Existe paixão, existe carinho, existe amizade. E atenção, cuidado, companhia. Mas amor, amor mesmo, o que é? Uma mistura disso tudo? E o ciúme, a saudade, a vontade de ficar junto quando não se está junto, as expectativas frustradas, a irritação, a outra pessoa não pensa como você, que coisa irritante! Isso tudo também é amor? Vou ser budista, então, essa visão ocidental desinformada que a gente tem de budismo, vou aceitar as coisas como elas são, sem mais nem menos, tudo tem um propósito e eu não preciso saber qual é. Aí esse lado ruim do amor não me incomoda mais. Peraí, eu falei que amor não existe. Existe? Prova para mim. Você já pensou que amava alguém, disse para a pessoa do fundo do seu coração, e depois - pode ter sido dias, semanas, anos depois - concluiu que não amava? O que foi, dexou de amar? Mas amor de verdade não deveria acabar.
"Que não seja imortal, posto que é chama"... Isso não é amor, Vinícius, é paixão. Aliás, acho que o Vinícius de Moraes nunca amou ninguém de verdade - só ele mesmo. Amor-próprio existe, só amor que não. E amor-próprio (que na verdade nem é amor, é estima: auto-estima), pouquíssima gente tem.
Concluiu que tinha que ir trabalhar mesmo, não adiantava ficar enrolando. E nem se enganando: o que quer que fosse aquilo que ela achava que já tinha sentido, que ela ia quase sentir de novo, que ela sentia pela família distante, pelos amigos, por... Aquilo era amor. Ou se não fosse, qualquer nome que tivesse, ela queria sentir. Mesmo quando era ruim era bom, só era ruim quando acabava - porque a outra pessoa não amava, ou porque ela não amava, ou porque a pessoa morria. Esse é o pior: acabou porque a pessoa foi embora, sem querer ir, e você ficou, sem querer ficar. Aí, esse pedaço no seu coração não cicatriza, fica sempre um buraco - maior ou menor -, e aos poucos a gente vai ficando mais incompleto.
Levantou da cadeira, bateu as mãos (não tinha escrito uma linha) e resolveu fingir que era normal e não pensava nessas coisas. Pegou a bolsa, as chaves, abriu a porta e fugiu de si mesma: caiu no mundo.