De tudo que eu ainda não sei...

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Location: Brasília, DF, Brazil

Eu sou a menina que passava as tardes de férias na fazenda, em cima da goiabeira, lendo. E os meses de aula na casa da árvore, lendo. Ou deitada na cama, lendo, sem ouvir que o almoço estava na mesa. Hoje, queria ler mais do que eu gosto e menos do que eu preciso. Mas a gente aprende que a gostar do que faz, em lugar de fazer o que gosta?

Wednesday, August 31, 2005

Muitos prazeres e um pouco de dever... (do que eu acho que eu sou, mas pode nem ser verdade)

Eu gosto de tomar chuva
(acompanhada quando estou feliz e sozinha quando estou triste)
Mas eu não gosto de tomar remédio
Eu gosto de doce, de sal, de massa e de maçã
Mas não gosto de quiabo e de jiló
(até porque jiló é difícil de escrever e eu fico na dúvida)
Eu também odeio dúvida
Mas ter certeza é bem chato, a gente pára de crescer
Eu gosto de cachorro, muito!
E de gato, e de rato, e de borboleta e louva-deus
Mas de barata e de gente eu não gosto muito não
(porque um é asqueroso e o outro tem antenas)
Eu gosto de meninos e meninas
Mas muito mais dos primeiros que das segundas
Eu gosto de desenho, mas eu não sei
Eu gosto de música, mas eu não sei
Eu gosto de escrever, mas eu não sei
(isso você já percebeu)
Eu não gosto de ficar sozinha
mas tem poucas companhias de que eu gosto
(o que me torna uma eterna insatisfeita)
Eu acho que morrer deve ser bom
Mas já que eu estou aqui, eu quero ser parte da solução
e não do problema
Eu gosto de criar problemas
para as pessoas não acharem que o mundo é muito simples e fácil
Eu gosto de polêmicas
Pra eu não ser muito segura de mim
Eu sou excessivamente segura de mim
e muito insegura ao mesmo tempo
Eu tenho problemas em fazer o que é preciso
Quando o que é preciso não é certo
Eu me sinto muito mal quando acho que sou hipócrita
Eu tenho medo de ficar velha e sozinha
Eu tenho medo de ficar acompanhada cedo demais
Eu tenho medo de não aproveitar tudo
E de achar que tenho mais pra aproveitar do que o que existe realmente
Eu tenho medo de filme de terror
e de suspense muito pesado
Eu tenho raiva de quem joga lixo na rua
de quem é corrupto e desonesto
Eu tenho preguiça de gente burra por opção
e a minha paciência é bem curta para tudo
mas eu adoro criança
e coisas de criança
(eu adoro passear nas lojas de brinquedo para ver as novidades)
Eu gosto de tirinhas de desenho
De fazer careta
e de fazer carinho
(mas é tão difícil tocar nas outras pessoas!)
Eu adoro dar presentes
(mais do que receber, eu acho)
Eu canto no meio da rua como se ninguém estivesse olhando
e danço do mesmo jeito
Eu tenho muita vergonha da cicatriz que eu tenho no pé
Mas eu já aprendi a lidar com ela
Eu gosto de noites estreladas e dias de céu bem azul
é quando eu olho para cima por cinco minutos eu me sinto mais feliz!
Eu realmente acho que sou inviciável
porque as minhas muletas são outras...
Eu gosto de comer pastel na feira mas a gordura me faz mal
Eu não gosto de cigarro, e a vida acabou me cercando de fumantes que eu amo
Eu aprecio uma boa ironia
e adoro um sarcasmo
Eu acho que sou misantropa
(e eu aprendi essa palavra com 14 anos lendo Poe)
e eu não sei terminar as coisas na hora certa... Eu sempre me alongo demais.

O eterno retorno

Aviso aos apreciadores de Nietszche: eu não sei do que estou falando...

Sabe aquela história do eterno retorno? De que a história se repete, ainda que os atores sejam diferentes? É claro que qualquer observador comum consegue ver as semelhanças entre alguns fatos históricos passados e outros atuais. Até aí, tudo bem - a angústia de que tudo se repete infinitamente é compartilhada com os demais seres humanos, e o fardo parece mais leve de carregar. Mas o que acontece quando você sente que as coisas na SUA vida estão se repetindo? Você roda, roda, aprende com as pessoas (ou acha que aprende), deduz que fez algum progresso e acaba ali, de volta no mesmo lugar.

Eu sempre sinto isso quando o assunto são relacionamentos interpessoais. Toda amizade acaba tendo conflitos parecidos, e a gente sempre se perde nos mesmos deslizes. Toda paixão tem os mesmos defeitos, e a gente se chateia com coisas tão óbvias... É só dar um passo para trás, olhar para aquilo e pensar: "Nossa! Eu já fiz a mesma coisa antes! E deu muito errado! Por que é que eu não dou conta de simplesmente não fazer de novo?". Nem adianta: comigo, é batata fazer errado uma, duas, três vezes, antes dos tombos do cavalo deixarem lembranças fortes o suficiente (efeito Pavlov de condicionamento: você toma tantos choques que não quer mais tentar). Ainda bem que, para essas coisas, eu tenho memória de peixe: "lá vai de novo, descendo a ladeira, toda faceira, pronta pra fazer besteira...".

Ao mesmo tempo, a problemática só te parece igual às anteriores depois que você já consumou uma ação repetida (ou seja, quando é tarde demais). E, apesar de tudo repetido, e da sensação de "mais do mesmo", também acontece a eterna frustração de não poder prever aquilo... Um dos personagens de Kundera diz, em "A insustentável leveza do ser", que "einmal ist keinmal". Um provérbio alemão que, traduzido, passa a idéia de que "uma vez só não conta, uma vez só é nunca. Viver senão uma vida é como não viver nunca", porque é como fazer o rascunho de um quadro que nunca será pintado. Você vive a primeira vez, e é o ensaio de uma peça de teatro que não se apresentará jamais. Não sei se o Kundera estava falando do que eu entendi, mas para mim, é como se a gente nunca pudesse ver a jogada seguinte e se preparar. E, no entanto, depois que a jogada passa, eu tenho a impressão de déjà vu.

Vai ver, o grande lance é não olhar a vida como uma eterna seqüência de ironias - eu sempre acho que é uma peça sendo pregada nos meus sentidos e sentimentos. "Ah, tá bom, é um teste... Então como é que eu faço pra acertar a resposta?". Ou, de um ponto de vista mais otimista: "isso está acontecendo para eu aprender alguma coisa. O quê?". O problema é que, se acontece tantas vezes, será que eu sou tão burra que não aprendo nunca?

Tuesday, August 30, 2005

Dos meus motivos (ou da falta deles) pra fazer algo que eu considero estranho

E para começar...

Bom, eu tenho um amigo que está insistindo comigo, há um bom tempo, pra ter um blog. E eu sempre achei que era coisa de gente muito à toa, ou muito só, ou muito egocêntrica. Finalmente, como em tantas outras situações, eu resolvi ceder à sugestão do amigo e tentar algo novo. Por quê? Bom, eu não sou à toa, então deve ser uma mistura de egocentrismo e solidão. É lógico que se eu tivesse um monte de outras pessoas pra ouvir o que eu acho do mundo, eu não ficaria escrevendo isso aqui. E, certamente, assim que outros interesses mais prementes surgirem, esse blog será deixado meio de lado. Mas enquanto nem um, nem outro, acontece, vou tentar para ver no que dá. Aí fica a sensação de que alguém um dia pode tropeçar nesse endereço e ler. Como recentemente eu descobri que tem gente que lê as páginas dos outros no Orkut - e pior: eu me peguei lendo a página dos outros, e querendo que os outros escrevessem mais sobre si mesmos, e revelassem enfim quem eles são de verdade, porque uma pessoa é tudo quando ela se descreve, menos ela mesma -, acho que com blogs deve ser a mesma coisa. Pronto, está vendo o anseio egocêntrico de atenção já se revelando?

O negócio é que eu descobri, também, que quanto mais tempo a gente passa sozinho, mais a gente pensa. Eu acho até que é por isso que os grandes pensadores da Humanidade sempre passaram muito tempo sozinhos. A gente nunca ouve falar de um grande filósofo que também era conhecido como o melhor organizador de festas da sua época:
"- Cara, você foi na balada do Freud essa semana?
- Ah, véi, foi até legal, mas o Jung é bem melhor pra organizar umas festas bem doidas!
- Como assim, cara, só dá gente maluca nas festas do Freud!
- Sabia que eu ouvi dizer que as melhores festas, mesmo, foram aquelas que o Leonardo dava?
-Que Leonardo?
- Como assim? Da Vinci, lógico.
- Ah, também, ele e o Michelangelo viviam disputando quem era o melhor anfitrião..."

Bem pouco provável, né?

Mas voltando ao assunto: grandes pensadores pensavam muito porque passavam muito tempo sozinhos (ou o contrário? Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?). Só que eu não sou um grande pensador. O que significa que, quando eu fico sozinha, eu penso é bobagem, mesmo. MUITA bobagem. E infelizmente a sociologia, a história e a psicologia (e outras tantas disciplinas) já constataram que o ser humano é um ser social. Eu juro que eu tentei me isolar nos meus livros e CDs de blues, mas o fato inescapável é que não se deixa de ser humano do dia para a noite. Ou jamais, pra dizer a verdade (a não ser que você tenha um endoesqueleto de adamantium e um senador queira te banir do convívio social...). Então, já que essa é uma necessidade humana básica, começo eu a exercê-la também. Assim, lê quem quer, comenta quem for amigo e ninguém fica me olhando com aquela cara de "puxa, por que você não conversa como as outras pessoas?". Porque, afinal, quem são essas outras pessoas? Eu só aprendi a conversar assim...




Friday, August 26, 2005

Minha mão está morta
E o turbilhão de minh'alma
Não traça mais que letras tortas
Vazias e sem sentido

O que me vai por dentro
À superfície não chega
E os devaneios sem centro
Perdem-se em meio ao nada

Tanto queria eu dizer-lhe
Mas tão nulo seria o impacto
Que abstenho-me do ato
E em agonia me calo

Em sufocar sentimentos
Tornar-me-ei tão perita
Que a mente, não mais aflita

Há de dizer enfim
Que à dor já não suporta
Porque a alma está morta.